terça-feira, 16 de outubro de 2012

Leituras e dilemas do atual quadro político brasileiro


O presidente  nacional  do Democratas, senador Agripino Maia(RN), não  concorda com a conclusão de muitos analistas,com base nos resultados do primeiro turno e nas projeções para o segundo turno das eleições municipais,segundo a qual a oposição ao Governo Dilma praticamente se esfacelou.
“Na política, muita coisa muda a todo momento.Continuaremos (os democratas) firmes,juntamente com outras forças,entre as quais o PSB. Ou você acredita que o governador Eduardo Campos ficará do lado do Governo?” –indagou-me,mesmo diante do argumento de que a coalizão governamental ficará ainda mais forte com o senador Renan Calheiros(PMDB-Al) e o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) assumindo ,respectivamente, as presidências do Senado Federal  e da Câmara dos Deputados.
Com o PMDB dominando  a Câmara e o Senado, até a cadeia sucessória se altera nos próximos dois anos, pois,além de Michel Temer como vice de Dilma, os próximos presidentes da Câmara e do Congresso Nacional,ambos peemedebistas, tornam-se sucessores ,conforme estabelece a Constituição Federal.
O deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), notório parlamentarista e constitucionalista, admite que o PMDB  torna-se cada vez mais forte ao “blindar” a Presidente Dilma Rousseff, e chegou a elogiar o vice-presidente Michel Temer, um dos articuladores da coalizão e que,provavelmente, comporá a chapa com Dilma nas eleições de 2014, mas alerta para a situação de desgaste da Presidente ao ficar cercada pelo partido. “Isto poderá  gerar maior oposição”.
Andrada acredita na estratégia do senador e ex-governador de Minas, Aécio Neves, de apostar na eleição de Márcio Lacerda(PSB) para a prefeitura de Belo Horizonte, com vistas a uma aliança com o governador Eduardo Campos, de Pernambuco, figura de maior destaque  do PSB,para as próximas eleições presidenciais.”O povo mineiro sabe que o prefeito  Márcio Lacerda foi eleito em virtude do apoio de Aécio e não se esquecerá disto, ainda mais por ser  Aécio uma liderança nacional.”
As considerações do senador Agripino Maia e do deputado Bonifácio de Andrada esbarram,contudo, na incerteza reinante nas hostes do PSDB e do PSB,onde se calcula o potencial de possível dobradinha com Aécio Neves e Eduardo Campos, em 2014, para enfrentar o rolo compressor do Planalto que articula a reeleição de Dilma e Temer, incerteza que talvez se dissipe após o segundo turno das eleições municipais...
Não é apenas uma questão de composição de chapa,mas,também, de custo-benefício para os dois jovens e promissores líderes e seus respectivos partidos, e para a própria estabilidade política brasileira, em caso de vitória ou derrota sem um segundo turno eleitoral.Afinal,os interesses nacionais situam-se muito acima das ambições pessoais da sua "classe dirigente" (expressão cunhada por Gaetano Mosca).
Já o deputado Jair Bolsonaro(PP-RJ) acredita que a oposição a Dilma surgirá naturalmente das próprias divergências internas do PMDB e demais partidos da coalizão, e aponta como exemplos as pretensões do governador do Rio de Janeiro,Sérgio Cabral, de substituir Michel Temer como vice na chapa de Dilma,com apoio do prefeito Eduardo Paes,que, a seu ver, foi bem eleito porque “tem feito, sem dúvida, excelente administração no Rio.”
Tanto Andrada quanto Bolsonaro comemoram  os resultados  dessa eleição municipal.O filho do primeiro,Toninho Andrada,foi eleito prefeito de Barbacena(MG), tradicional reduto eleitoral da família,enquanto  Carlos Bolsonaro se reelegeu para um terceiro mandato de vereador no Rio. Outro filho de Bolsonaro,Flávio Bolsonaro, exerce segundo mandato de deputado estadual em São Paulo.
Duas famílias de estilos diferentes de linguagem na política.De um lado,o estilo liberal dos Andradas, e, de outro, o estilo radical dos Bolsonaros, a favor da pena-de-morte e contra o homossexualismo.

 

 

 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

PMDB terá presidências da Câmara e do Senado


A engenharia da coalizão de governo atual no Brasil levará o PMDB, partido  que é a espinha dorsal  desse modelo, a presidir a Câmara dos Deputados e o Senado Federal,no próximo período legislativo, a se iniciar em janeiro de 2013 e se encerrar em janeiro de 2015. Nesse momento,nove entre dez observadores do Congresso Nacional apostam nessa dobradinha,independentemente do resultado do segundo turno das eleições municipais.
O clima parlamentart é favorável à Presidente Dilma Rousseff, pelo PT, e ao seu vice Michel Temer, do PMDB, para manterem a mesma chapa e disputarem a reeleição em 2014, e para que isso aconteça se apoiarão numa sólida maioria parlamentar, garantida pela eleição do senador  Renan Calheiros(PMDB-AL),à Presidência do Senado, e do deputado Henrique Eduardo Alves(PMDB-RN),à Presidência da Câmara dos Deputados.
Além da Presidente Dilma, esse esquema contaria com a aprovação dos ex-presidentes Lula, Fernando Collor e José Sarney (atual presidente do Congresso Nacional, que já manifestou sua intenção de não disputar mais nenhuma eleição). Com respaldo nas vitórias obtidas nesse primeiro turno, PMDB e PT fazem a base da coalizão quase que sem oposição significativa, mas seria uma ilusão considerar que há uma trégua em curso. Dentro dos dois partidos há vaidades e invejas em fermentação.
É a guerra intestina pelo poder, que tende a se ampliar nas próximas décadas, como espécie de subproduto da coalizão, por mais funcional que esta seja, a ponto de servir    de inspiração para vários países, embora criticada por figuras expoentes, entre as quais o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Ayres Britto, que admite coalizões temporárias,mas não permanentes, por servirem,conforme acredita, de biombo para corrupções e desvirtuamentos das ideologias republicana e  democrática.
O experiente e falecido senador Magalhães Pinto dizia que a política, à semelhança das nuvens, muda de forma a todo instante, mas essa observação parece que não é levada em consideração pelos estrategistas da coalizão, mesmo diante da grande possibilidade de que o candidato à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, ex-ministro da Educação, lançado por Lula,vença o candidato do PSDB,José Serra, transformando-se em figura presidenciável do PT, pela importância do orçamento paulista,maior que o PIB de vários países: Cerca de 36 bilhões de reais.
Naturalmente, há lideranças petistas de dentro e de fora de São Paulo que estão torcendo silenciosamente para que Fernando Haddad perca a eleição, pois assim terão um concorrente a menos ao Palácio do Planalto. Nem tanto por ambição pessoal, mas pela oportunidade que recebeu de Lula , Haddad entrou no jogo pesado da política apoiado,inclusive, pelo ex-prefeito Paulo Maluf,ainda um fenômeno eleitoral na capital paulista.
O cargo de prefeito de São Paulo, por força da tradição política brasileira, projeta seu titular nacionalmente, e o mais recente exemplo é o do prefeito atual, Gilberto Kassab, até então ilustre desconhecido, que teve uma pálida administração, mas conseguiu a proeza de inventar o Partido Social Democrático - PSD -, que, em menos de dois anos, se transformou na quarta força eleitoral do País, conquistando, no primeiro turno dessas eleições municipais, 492 prefeitos e 4.601 vereadores.
Uma incógnita a ser considerada é a participação do PMDB do Rio de Janeiro nessa coalizão, com a demonstração de força dada pelo governador Sérgio Cabral e pelo prefeito Eduardo Paes,que se reelegeu em primeiro turno com votação esmagadora. Embora necessitem do apoio do Palácio do Planalto para organizar os eventos da Copa do Mundo e das Olimpíadas, são atores que pesam muito no jogo decisório, confrontando-se com o poder paulista no controle da política nacional. Prova disto é Paes afirmando que o apoio do PMDB a Haddad é natural, e o vice-presidente Temer afirmando que não é natural. Uma casual troca de chumbo ou prenúncio de futuros embates?
Presenciei, hoje,no Plenário do Senado Federal,sessão solene em homenagem ao falecido deputado Ulysses Guimarães,ícone do PMDB. Dois dos oradores foram o vice-presidente da República,Michel Temer, e o presidente do Senado Federal, José Sarney, que exaltaram o talento e a presença de Ulysses na articulação política e o legado que deixou à legenda. Sentados, lado a lado, à Mesa estavam o senador Renan Calheiros e o deputado Henrique Eduardo Alves. Enfim, uma demonstração do PMDB de que está unido na terra,sob as bençãos celestiais de Ulysses Guimarães...

domingo, 14 de outubro de 2012

Notícias, prospectivas desagradáveis, gás de xisto ,da guerra e adendo

Gélio Fregapani(Membro da Academia Brasileira de Defesa)
 

Notícias

José Genoino pediu demissão da assessoria especial do Ministério da Defesa. A Presidente teria avisado que ele deveria pedir demissão assim que terminasse o julgamento de sua participação no mensalão.

Genoino já não era mais nosso inimigo, mas sua presença no Ministério da Defesa, naturalmente imposta por Lula, era um tremendo desprestigio para as Forças Armadas.

O Wikileaks revelou gravíssima sabotagem dos EUA contra Brasil com aval de FHC. Os telegramas diplomáticos divulgados pelo Wikileaks falam do veto norte-americano ao desenvolvimento de tecnologia brasi leira para foguetes, bem como indicam a cândida esperança mantida ainda pela Casa Branca, de que o TSA( acordo de salvaguardas Brasil-EUA) fosse implementado como pretendia o ex-presidente. Não bastou a adesão incondicional ao Tratado de Não Proliferação, feito por aquele apátrida. O Acordo (TSA), firmado em 2000 por FHC, felizmente foi rejeitado pelo Senado.

Foi noticiado que a presidente Dilma ficou irritada com a idiotice verbal de seu Secretário-Geral sobre o julgamento do Mensalão. A Presidenta teria mandado que Gilberto Carvalho se retratasse. E só não o teria exonerado porque sabe da crise que causaria com o PT.

Perspectivas desagradáveis, mas indispensáveis

1-Não vai demorar o aumento da gasolina, por mais inflação que cause. Enquanto a nossa produção não satisfizer a demanda será necessário que a Petrobrás compre petróleo ao preço internacional. Manter o preço atual, ou seja subsidiar o consumo, causa tal prejuízo que impediria os investimentos para o aumento da produção. Espera-se o aumento para depois do segundo turno.

2-Não poderá demorar demasiado o aumento da idade mínima para a aposentadoria. No rumo que vai a redução da taxa de natalidade e o aumento da longevidade, em breve teremos mais aposentados do que trabalhadores, coisa que nenhum sistema previdenciário poderá aguentar. O aumento da idade mínima será indispensável e trará alívio a curto prazo, mas não haverá solução se a taxa de natalidade for menor do que dois filhos por casal.

O gás de xisto e a Geopolítica.

É apenas uma possibilidade, mas entre os que agora dependem da importação de energéticos, os EUA, a China e a Europa, dentro de algum tempo talvez possam livrar-se dessa dependência com a exploração do gás de xisto. Se isto realmente acontecer, e for a preços competitivos, além do reforço na economia deles, causará sérios problemas econômicos para os atuais produtores, que perderão seus principais mercados. Assim sentimos que a Rússia, grande fornecedor ao mercado mundial, enfrentaria no mínimo uma forte crise e mais de um país do Oriente Médio teria de voltar ao pastoreio de cabras.

Caso o pré-sal deslanche e nos tornemos grandes fornecedores teremos também problemas,pois também não teremos mercado, é bom mantermos as barbas de molho. E isto se o mundo se mantiver em paz, o que também é apenas uma possibilidade.

Da Guerra

Pouca coisa se vê no horizonte, capaz de interromper o presente círculo vicioso da crise financeira, e muitos recordam que a grande depressão mundial dos anos 30 acabou devido ao choque de demanda da Segunda Guerra Mundial. Naquela ocasião, só nos EUA, foram mobilizadas 14 milhões de pessoas, mas agora os conflitos armados não mais geram tantos empregos, nem nas tropas nem nas indústrias. O uso de armas altamente tecnológicas reduz de muito o poder de mobilização das guerras do século passado. Assim, a guerra como solução para a crise é, em parte, questionável.

Isto não significa que haverá paz, mas o aumento do poder militar russo e chinês, indica que uma guerra generalizada será evitada se for possível. Isto explica a pouca disposição de Obama em arriscar uma guerra generalizada para defender Israel.

Entretanto, até poucas semanas havia motivo para crer que a guerra começaria ainda em outubro; que Israel atacaria o Irã antes das eleições, e que o revide iraniano obrigaria Obama a ajudar Israel, pois não poderia abrir mão do voto judeu. Agora, com a perspectiva de vitória de Romney, mais disposto a ações bélicas, certamente o ataque ficará adiado para depois das eleições norte-americanas. Este ataque só deixará de acontecer se o Irã adquirir credível capacidade de dissuasão, ou se as sanções derem certo. É sempre bom lembrar que a solução imposta pela guerra ou extermina o adversário ou perpetua o ódio e só adia as novas guerras.

Outro conflito que se esboça seria uma invasão turca à Síria. O assunto é complexo, mas é lícito deduzir que a Turquia estaria agindo por procuração da OTAN, de forma a tomar posições para o ataque ao Irã sem generalizar a guerra. Tal procedimento, entretanto, não é completamente seguro, pois a Rússia, inimiga ancestral da Turquia, poderia aproveitar a ocasião. Há informes que já teria incentivado uma coligação com países balcânicos espoliados na expansão otomana para acertar suas contas. Daí para a generalização da guerra seria um passo.

O agravamento nas tensões entre China e Japão, com perigo dos possíveis embates abalarem a economia mundial e não pode ser descartado, mas espera-se que os “combates” se limitem a jatos de água.

ADENDO

A História contada por quem viu

Por Izidro Simões

No momento em que tanto se fala da cobiça internacional sobre a Amazônia, da ação de ONGs de todos os tipos agindo livremente na região Norte, de estrangeiros vendendo pedaços da nossa floresta, da encrenca que está sendo a homologação da Raposa/Serra do Sol, de índios contra índios, de índios contra não-índios, das ações ou omissões da Funai, do descontentamento das Forças Armadas com referência os rumos políticos que estão sendo dados para esta quase despovoada mas importantíssima parte das fronteiras da nação, é mais do que preciso falar quem sabe, quem conhece, quem vivencia ou quem tenha alguma informação de importância.

Assim sendo, para ficar registrado e muito bem entendido, vou contar um acontecimento de magna importância, especialmente para Roraima, e do qual sou testemunha ocular da História.

Corria o ano de 1993 – portanto, já fazem 15 anos. Era governo de Itamar Franco e as pressões de alguns setores nacionais e vários internacionais, para a homologação da Raposa/Serra do Sol, eram fortes e estavam no auge. Tinha-se como certíssimo de que Itamar assinaria a homologação.

Nessa época, eu era piloto da empresa BOLSA DE DIAMANTES, que quinzenalmente enviava compradores de pedras preciosas para Uiramutã, Água Fria, Mutum e vizinhanças.
No dia 8 de setembro de 1993, aí pelas 17:00, chegamos em Uiramutã, e encontramos a população numa agitação incomum, literalmente aterrorizada. Dizia-se por toda parte, que Uiramutã ia ser invadida, que havia muitos soldados "americanos", já vindo em direção à localidade.

A comoção das pessoas, a agitação, o sufoco eram tão grandes que me contaminou, e fui imediatamente falar com o sargento PM que comandava o pequeníssimo destacamento de apenas quatro militares, para saber se ele tinha conhecimento dos boatos que circulavam, e respondeu-me que sabia do falatório. Contou-me então que o piloto DONÉ (apelido de Dionízio Coelho de Araújo), tinha passado por Uiramutã com seu avião Cessna PT-BMR, vindo da cachoeira de ORINDUIKE, no lado brasileiro, (que os brasileiros erradamente chamam de Orinduque), contando para várias pessoas, que havia um acampamento enorme, com muitos soldados na esplanada no lado da Guiana, na margem do rio Maú, nossa fronteira com aquele país.

Aventei a necessidade de que o sargento, autoridade policial local, fosse ver o que havia de fato e falei com o dono da empresa, que aceitou, relutante e receioso, emprestar o avião para o sargento. Como, entretanto, o sol já declinava no horizonte, combinamos o vôo para a manhã seguinte.

Muito cedo, o piloto Doné e seus passageiros, que tinha ido pernoitar na maloca do SOCÓ, pousaram em Uiramutã. Eu o conheci nessa ocasião, e pude ouvir dele um relato. Resumindo bastante, contou que na Guiana havia um grande acampamento militar e que um avião de tropas estava trazendo mais soldados para ali.

Estávamos na porta da Delegacia, quando chegou uma Toyota do Exército, com um capitão, um sargento e praças.,vindos do BV 8. Ele ia escolher e demarcar um local para a construção do quartel de destacamento militar ali naquela quase deserta fronteira com a Guiana. BV 8 é antigo marco de fronteira do Brasil com a Venezuela, onde há um destacamento do Exército, na cidade de Pacaraima. Muito interessado e intrigado com o fato, resolveu ir conosco nesse vôo.

O capitão trazia uma boa máquina fotográfica e emprestei a minha para o sargento. O vôo foi curto, apenas seis minutos. Demos tanta sorte, que encontramos um avião para transporte de tropas, despejando uma nova leva de soldados, no lado guianense. Voando prá lá e prá cá, só no lado brasileiro, os militares fotografavam tudo, e o capitão calculou pelo número de barracas, uns 600 homens, até aquele momento.

Fiz diversas idas e vindas e, numa delas vi o transporte de tropas decolando e virando para a esquerda. Exclamei para o capitão: eles vem pra cima de nós! Como é que você sabe? Perguntou. Viraram para a esquerda, que é o lado do Brasil e, não da Guiana, respondi. Girei imediatamente a proa para Uiramutã e, ao nivelar o avião, o capitão me disse muito sério: estamos na linha de tiro deles! Foi então que olhando para a direita, vi à curta distância e, na porta lateral do transporte, um soldado branco, com um fuzil na mão.

Confesso que foi um grande susto! O coração parecia-me bater duas e falhar uma. Quem conhece a região, sabe que ali naquela parte, o Maú é um rio muito sinuoso. Enfiei o avião fazendo zig-zag nesses meandros, esperando conseguir chegar em Uiramutã. Se atiraram, não ficamos sabendo, mas após o pouso, havia muita gente na pista, que fica juntinho das casas. Agitadas, contaram que aquele avião tinha girado duas vezes sobre nós e a cidade, tomando rumo de Lethen, na Guiana, onde há uma pista asfaltada, defronte de Bomfim, cidade brasileira na fronteira.

Com esse fato, angustiou-se mais ainda a população, na certeza de que a invasão era iminente. O capitão determinou ao sargento e a mim, que fizessemos imediatamente um relatório minucioso, para ser envido ao comando da PM, em Boa Vista e partiu acelerado de volta ao pelotão de fronteira no BV 8.

Na delegacia, o sargento retirou o filme da minha máquina fotográfica, para enviar ao seu comando e eu datilografei um completo relatório que ele colocou em código e transmitiu via rádio para Boa Vista. Naquela época, o chefe da S2 da PM ( Seção de Inteligência), era o major Bornéo.
Uns quatro dias depois que cheguei desse giro das compras de diamantes, tocou a campainha da minha casa, um major do Exército.

Apresentou-se e pediu-me para ler um papel, que não era outro, senão aquele mesmo que eu datilografara em Uiramutã , e do qual o comando da PM enviara cópia para o comando do Exército em Boa Vista. Após ler e confirmar que era aquilo mesmo, pediu-me para assinar, o que fiz. Compreendi que tinha sido testemunha de algo grande, maior do que eu poderia imaginar, e pedi então ao major, para dizer o que estava acontecendo, uma vez que parte daquilo eu já sabia. Concordou em contar, desde que eu entendesse bem que aquilo era absolutamente confidencial e informação de segurança nacional. Concordei.

Disse o major, que a embaixada brasileira em Georgetown tinha informado ao Itamarati, que dois vasos de guerra, um inglês e outro, americano, haviam fundeado longe do porto, e que grandes helicópteros de transporte de tropas, estavam voando continuamente para o continente, sem que tivesse sido possível determinar o local para onde iam e o motivo.

Caboclos guianenses (índios aculturados) tinham contado para caboclos brasileiros em Bomfim, cidade de Roraima na fronteira, terem os americanos montado uma base militar logo atrás da grande serra Cuano-Cuano, que por ser muito alta e próxima, vê-se perfeitamente da cidade. O Exército brasileiro agiu com presteza, e infiltrou dois majores através da fronteira, e do alto daquela serra, durante dois dias, filmaram e fotografaram tudo. Agora, com os fatos ocorridos em Orinduike, próximo de Uiramutã, nossa fronteira Norte, fechava-se o entendimento do que estava acontecendo.

E o que estava acontecendo? As pressões internacionais para a demarcação da Raposa / Serra do Sol apertavam, na certeza de que o Presidente Itamar Franco assinaria o decreto. Em seguida, a ONU, atendendo aos "insistentes pedidos dos povos indígenas de Roraima", determinaria a criação de um enclave indígena sob a sua tutela, e aí nasceria a primeira nação indígena do mundo. Aquelas tropas americanas e as inglesas, eram para garantir militarmente a tomada de posse da área e a "nova nação"

Até a capital já estava escolhida: seria a maloca da Raposa, estrategicamente localizada na margem da rodovia que corta toda a região de Este para Oeste, e divide geográfica e perfeitamente a região das serras daquela dos lavrados roraimenses – que são os campos naturais e cerrados.
Itamar Franco – suponho – deve ter sido alertado para o tamanho da encrenca militar que viria, e o fato é que, nunca assinou a demarcação.

Nessa mesma ocasião (para relembrar: era começo de setembro de 1993), estava em final de preparativos, o exercício periódico e conjunto das Forças Armadas nacionais, na cidade de Ourinhos, margem do rio Paranapanema, próxima de Sta. Cruz do Rio Pardo e Assis, em São Paulo, e Cambará e Jacarezinho, no Paraná.

Com as alarmantes notícias vindas de Roraima, o Alto Comando das Forças Armadas mudou o planejamento, que passou a chamar-se "OPERAÇÃO SURUMU" e, como já estava tudo engrenado, enviou as tropas para Roraima. Foi assim que à partir da madrugada de 27 de setembro de 1993, dois aviões da VARIG, durante vários dias, Búfalos, Hércules e Bandeirantes despejaram tropas em Roraima. Não cabendo todas as aeronaves militares dentro da Base Aérea, o pátio civil do aeroporto ficou coalhado de aviões militares. Chegaram também os caças e muitos Tucano. Veio artilharia anti-aérea, localizada nas cercanias de Surumu, e foi inclusive expedido um aviso para todos os piloto civis, sobre áreas nas quais estava proibido o sobrevôo, sob risco de abate.

Tendo como Chefe do Comando Militar da Amazônia (CMA), o general de Exército José Sampaio Maia – ex-comandante do CIGS em Manaus, e como árbitro da Operação Surumu, o general de Brigada Luíz Alberto Fragoso Peret Antunes (general Peret), os rios Maú, Uailã e Urariquera enxamearam de "voadeiras" cheias de soldados. Aviões de caça fizeram dezenas de vôos razantes nas fronteiras do Norte. O Exército também participou com a sua aviação de helicópteros, que contou com 350 homens do 1º, 2º e 3º esquadrões, trazendo 15 Pantera (HM-1) e 4 Esquilos, que fizeram um total de 750 horas de vôo. Vieram também cerca de 150 páraquedistas militares e gente treinada em guerra na selva. A Marinha e a Força Aérea contribuíram com um número não declarado de homens, navio s e aeronaves.

Dessa maneira, não tendo Itamar Franco assinado o decreto de demarcação da Raposa / Serra do Sol e, vindo essas forças militares para demonstrar que a entrada de soldados americanos e ingleses em Roraima, não seria feita sem grande baixas, "melou" e arrefeceu a intenção internacional de apossar-se desta parte da Amazônia, mas não desistiram.

Decepcionando muito, embora sendo outro o contexto político internacional, Lula fez a homologação dessa área indígena, contestada documentalmente no Supremo Tribunal e, ainda tentou à revelia de uma decisão judicial, retirar "na marra", os fazendeiros e rizicultores ("arrozeiros") dessa área, que como muita gente sabe – inclusive os contrários – tem dentro dela propriedades regularmente documentadas com mais de 100 anos de escritura pública e registro, no tempo em que Roraima nem existia, e as terras eram do Amazonas.

Agora, entretanto, os interesses difusos e estranhos de muitas ONGs, dizem na internet, que esses proprietários são "invasores", quando até o antigo órgão anterior ao INCRA, demarcou e titulou áreas nessa região, e que a FUNAI, chamada a manifestar-se, disse por escrito, que não tinha interesse nas terras e que nelas, até aquela ocasião, não havia índios.

As ONGs continuam a fazer pressão, e convém não descuidar, porque nada indica que vão desistir de conseguir essas terras "para os índios", e de graça, levarem além de 1 milhão e 700 mil hectares – quase o tamanho de Sergipe – tudo o mais que elas tem: ouro, imensas jazidas de diamantes, coríndon, safira de azul intenso, turmalina preta, topázio, rutilo, nióbio, urânio, manganês, calcáreo, petróleo, afora a vastidão das terras planas, propícias à lavoura, área quase do mesmo tamanho onde Mato Grosso planta soja que fez a sua riqueza.

Isso, é o que já sabemos, porque uma parte disso foi divulgada numa pesquisa da CPRM – Cia. de Pesquisa de Recursos Minerais, em agosto de 1988 (iniciada em 1983), chamada de Projeto Maú, que qualifica essa parte da Raposa/Serra do Sol, como uma das mais ricas em diamantes no Brasil, sendo o mais extenso depósito aluvional de Roraima, muito superior ao Quinô, Suapi, Cotingo, Uailã e Cabo Sobral.

Essa pesquisa foi inicialmente conduzida pelo geólogo João Orestes Schneider Santos e, posteriormente, pelo também geólogo, Raimundo de Jesus Gato D´Antona, que foi até o final do projeto, constatando a possibilidade da existência de até mais de 3 milhões de quilates de diamantes e 600 Kg de ouro. Basta conferir a cotação do ouro e diamantes, para saber o que valem aquelas barrancas do rio Mau, só num pequeno trecho.

A "desgraça" de Roraima é ser conhecida internacionalmente na geologia, como a maior Província Mineral já descoberta no planeta. Nada menos que isso!
E o que ainda não sabemos? Essa pesquisa, feita em pouco mais de 100 quilômetros de barranca do rio, cubou e atestou a imensa riqueza diamantífera da área. Entretanto, o Estado de Roraima ainda tem coríndon, manganês, calcáreo e urânio, afora mais de 2 milhões e 100 mil hectares de terras planas agricultáveis, melhores que aquelas onde plantam soja no Mato Grosso.


Izidro Simões é Piloto de Garimpo e um dos maiores conhecedores da Amazônia.