segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Carnaval dá trégua ao Governo Temer e a políticos acusados de corrupção

 
O clima em Brasília é de trégua política, por causa das festas carnavalescas em todo o Brasil,depois do vendaval de delações feitas por 77 executivos da empresa empreiteira Odebrecht à "Operação Lava Jato", envolvendo os nomes de 120 políticos, entre os quais o próprio Presidente Michel Temer e os ex-presidentes Lula, Dilma, Collor e Sarney, além dos atuais presidentes do Senado Federal, Eunício de Oliveira, e da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia e do líder do governo no Senado, Renan Calheiros. As reformas anunciadas pelo governo Temer também vêm causando agitação social.
 
Uma suspeição geral  foi lançada pelos delatores obre a cúpula atual da política brasileira, que tenta manobras discretas e até escancaradas para desacreditar as delações. Dois ministros fortes de Temer, o chefe da Casa Civil,  Eliseu Padilha, e Moreira Franco, secretário-geral da Presidência da República, além de outros notáveis personalidades do Congresso, como o senador Edson Lobão, presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, e Romero Jucá, presidente nacional do Partido do Movimento Democrático Brasileiro -PMDB-, também tentam articular sua defesa perante as graves acusações de corrupção, mas as redes sociais se manifestam atentas a casa manobra desses delatados.
 
A indicação do ex-ministro da Justiça, Alexandre Morais, para o Supremo Tribunal Federal, é vista como parte dessa estratégia de reação desses acusados para acabar com a "Operação Lava Jato", coordenada pelo juiz austero juiz  Sérgio Moro, de Curitiba, que já teria provas suficientes para interrogar os acusados e prendê-los.
 
Os Procuradores Gerais do Brasil têm recebido apoio dos seus colegas de 19 países interessados em vasculhar as operações da Odebrecht e outras empreiteiras brasileiras no exterior, em especial na América Latina e na África, onde a empresa e suas similares executam projetos com propinas pagas a políticos brasileiros. Já se encontram presos o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, o ex-ministro da Fazenda, Antônio Palloci, o ex-ministro José Dirceu e o empresário Eike Baptista, além do ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.Todos acusados de enriquecimento ilícito.
 
O Presidente Michel Temer acelera as reformas da previdência, trabalhista e tributária no Congresso Nacional, numa tentativa de reverter o quadro negativo da economia brasileira e melhorar o astral de seu governo com vistas as eleições de 2018, que, por ironia das pesquisas de opinião realizadas na semana passada pela Confederação Nacional  dos Transportes -CNT- apontam o ex-presidente  Lula como favorito.
 
Nas redes sociais, as pesquisas da CNT não são dignas de crédito, pois a imagem de Lula é de derrotado e criminoso e estimula o rancor da classe média, que deseja a sua prisão imediata. Para alguns analistas, o sistema político, discretamente, estimula a permanência do Partidos dos Trabalhadores -PT- na disputa do poder como fator de equilíbrio eleitoral-partidário, diante da ausência de outro partido mais forte de esquerda. Sem Lula, podem emergir candidatos da direita radical, como Jair Bolsonaro, ou da direita moderada, como o prefeito João Dória, de São Paulo, associados ao fenômeno Donald Trump, nos Estados Unidos.
 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

"Janela de Brasília(XLVI)"

 
1. O Presidente Temer confirmou o nome de seu atual ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal- STF-. Considerado um intelectual virtuoso, especialista em Direito Constitucional, Moraes deixará um Ministério da Justiça conturbado pela violência no sistema penitenciário e agora no Estado do Espírito Santo, onde já há 70 mortos em decorrência da greve que a polícia militar vem realizando para receber melhores vencimentos.
 
Não foi uma boa performance de Alexandre de Moraes à frente do Ministério da Justiça e, como advogado de banca forte, é acusado de ter defendido causas de interesse do Primeiro Comando da Capital -PCC-, a mais poderosa organização criminosa dos presídios. Seu substituto no Ministério da Justiça ainda é uma incógnita.Teme-se pelo futuro da Lava Jato sob a liderança do juiz Sérgio Moro...
 
2. Chovendo bem no Distrito Federal, mas não no principal local responsável pelo abastecimento de água, a região da barragem de Santa Maria. Com a represa baixa, o brasiliense começa a experimentar o racionamento de água através das tarifas mais altas e da redução da pressão dos jatos nas torneiras. Tudo indica que, no Brasil, um país rico em mananciais de água doce, o precioso líquido vai ser determinante neste século.
 
3. Li que o jogador Neymar, milionário, tem bancado viagens internacionais para muitos amigos. Tudo bem, ele tem muito dinheiro, mas  o mundo de futebol está repleto de jogadores famosos que morreram à míngua porque não souberam administrar seu patrimônio e esbanjaram dinheiro com farras, jogos e mulheres. Dinheiro sempre foi e será coisa frágil...
 
4.Aos poucos, os brasileiros vão sabendo que o Presidente Michel Temer não é um amador da política, nem um artesão. Temer é um excepcional timoneiro e  tecelão político e não se assusta diante da baixa popularidade Joga com as cartas que tem na mão, a maioria cartas viciadas e marcadas, mas é com elas que vai recuperar a economia brasileira destroçada pelos 13 anos do Lulopetismo no poder.
 
5.Nos próximos dias, o governo apresentará sua proposta de reforma da previdência, um sério desafio pata o Presidente Michel Temer, que procura se escorar da melhor maneira possível no Congresso Nacional para aprovar a matéria e, depois,  promover as reformas trabalhista e tributária. O Brasil tem uma das piores burocracias do mundo e tais reformas dependem de mudanças estruturais.
 
6. O Governo do Distrito Federal continua afastado do Povo. Dia desses vi uma foto do governador atual, Rodrigo Rollemberg, abraçado com dois ex-governadores hoje execrados, Cristovam Buarque e  Agnelo Queiróz. Só faltou mesmo José Roberto Arruda para simbolizar no abraço o apocalipse político do Distrito Federal, hoje com três milhões de habitantes.
 
7. Ainda sob observação o deputado Joe Valle na presidência da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Ainda não mostrou serviço, embora digam que é forte candidato à sucessão de Rodrigo Rollemberg. Joe Valle permitiu que tirassem da gerência do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural -SENAR- no DF o médico veterinário Anderson Vieira, que vinha fazendo excelente gestão. Trabalho que cairá por terra, seguramente, por causa de conchavo político. Conheço a competência do meu genro...
 
 
 
 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

"Samos o lado certo da vida errada”

 
Aylê-Salassié F. Quintão*
             “Se as cabeças não forem encontradas, as famílias vão receber os corpos assim mesmo”, informou o diretor-geral do Instituto de Perícia (Itep), Marcos Brandão, sugerindo que no caso de  só as cabeças serem descobertas,  serão da mesma forma entregues às famílias.  Degolados, mutilados  ou incinerados, cadáveres em decomposição e até partes de esqueletos antigos estão sendo retirados das 40 fossas, de 18 m3, construídas dentro presídio de Alcaçuz   para absorver  os esgotos, fezes e todo tipo de  imundice produzida pelos detentos. Na primeira operação limpeza depois do massacre, 15 corpos foram resgatados sem cabeça e duas cabeças sem corpo. Até o meio da semana restariam ainda 11 cabeças desaparecidas. Um teatro de horror!
            “Océis são da grobo com acesso à polícia, ou são da polícia com acesso a imprensa?”, ironizou o colega. Chafurdando na internet descobri  e acabo de ler o Relatório de um inquérito  da Polícia Federal, de 2014/15, com 686 páginas,  sobre a facção criminosa Família do Norte, que possui um contingente de “soldados”, devidamente cadastrados, de mais de 200 mil militantes,  distribuídos pelos estados do Norte e agindo dentro e fora das cadeias federais, estaduais e municipais.
                  Em  seis meses de investigações foram interceptadas 1,1 milhão de mensagens telefônicas com informações explícitas de que a FDN preparava o assassinato em massa  de membros do Comando Vermelho detidos em penitenciárias regionais. Detectaram-se crimes como tráfico de drogas da Colômbia e do Peru para o Brasil (Rotas Solimões e Tabatinga), de armas, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, homicídios, sequestros, torturas e corrupção de autoridades públicas. Foram realizadas 11 grandes apreensões de drogas , a prisão de 27 membros e associados à organização criminosa ORCRIM, e a apreensão de 2,2 TONELADAS de drogas, avaliadas em 18 milhões de reais, além de submetralhadoras, granadas explosivas e dinheiro em espécie. Um dos principais chefes da facção criminosa admite o assassinato pela FDN de mais de 250 pessoas só em Manaus, tendo contribuído diretamente para a eleição de vereadores em vários municípios.           Encaminhado ao Juiz Federal da Região Norte e ao Ministério Público Federal o Relatório tramitou com uma certa lerdeza, talvez por alguma conveniência política (eleições) ou econômica (limitação de investimentos).            
 
                 A estratégia federal de redistribuição das lideranças das facções em conflitos, detidas, para unidades carcerárias estaduais contribuiu para criar uma rede de criminalidade pelo País, facilitando acordos de apoio mútuo, desde que respeitadas as hegemonias regionais. Juntas, somam, contudo, um contingente de “soldados” maior que o  das forças armadas brasileiras. Faz lembrar o recado do cangaceiro  Lampião para o general Juarez Távora,  nomeado interlocutor de Getúlio no Nordeste: “O sr. pode mandá da metade do Nordeste prá lá. Do sertão eu cuido”. Chegou a ser apelidado de “O rei do Sertão”.                
                 “ É uma guerra de facções!”, justificou aparentemente aliviado o ministro da Justiça, Alexandre Moraes. Criminosos comuns rivais disputando em todo o País o controle das penitenciárias e de áreas enormes fora delas, onde querem gozar a liberdade de distribuir e consumir drogas. Cada facção defende o controle de uma região. A Família do Norte controla o Amazonas e áreas periféricas, inclusive o Rio Grande do Norte, onde compete com o Sindicato do Crime.
              “Samos o lado certo da vida errada”, diz com convicção JOÃO BRANCO, há 31 anos no crime. Destaca que a FDN é hoje a terceira maior facção criminosa do Brasil, atrás somente do Comando Vermelho(RJ) e do Primeiro Comando da Capital(SP), sendo respeitada no mundo do crime.  Trechos selecionados da sua fala mostraram a audácia de suas ações :             “Aqui nos Samos o Crime, mano . As Rua, os bairros sao tudo Mapiado pela FDN. Tds os interior. Tem 200 mil homens tudo cadastrado com suas Senhas . Um lap top e um aparelho blackberry, com “programa  só nosso”, registram membros,  enviam ordens e recebem mensagens.   Tem uma caixinha com a entrada de R$ 500 mil por mês. Tem q tê 1milhao mês”. Há uma conta centralizada num grande banco, em nome de um laranja, com CPF, identidade e endereço.”
             Num chamado “Salve Geral” (comunicação interna), o líder explica que  :  
              - Este dinheiro é prá pagar advogado, comprar armas, ajudar membros das famía dos presos e amenizar as duras condições de vida no sistema, e reforçar a autoridade das lideranças da FDN junto a massa presidiária. Nomes de diretores, de carcereiros, policiais, advogados e até de juízes em exercício  são citados no Relatório.
 
            O espaço ocupado pelas organizações criminosas, muitas vezes com configuração de OnG, é  um outro mundo: um Brasil paralelo, com governo, estatuto, juramentos, direitos, deveres, e perigosas extensões regionais. Assim, sob um teto de terror e soluções  confusas para a segurança da pública, a onda de violência pode ser  esquecida rapidamente a partir do momento em que o Congresso e o Judiciário reiniciarem suas atividades. Bauman chamou  isso de “abismo desumano” da modernidade, representado no “despedaçamento das responsabilidades” que afasta o homem das consequências das suas ações.  .
 
*Jornalista, professor, doutor em História Cultural