quinta-feira, 5 de junho de 2014

Para sobreviver, sair do dólar

 
 
Adriano Benayon *
 
O sistema monetário internacional, que prevalece desde 1971, é ainda  pior que  o criado pelos Acordos de  Bretton Woods, em 1944, meses antes de acabar a 2ª Guerra Mundial.
 
2. Esses acordos - que instituíram o Banco Mundial e o FMI  -  deram primazia ao dólar como moeda de reserva mundial, mas estabeleciam limite à tirania financeira angloamericana, porquanto os EUA se comprometiam a vender ouro em troca de dólares, à taxa fixa de US$ 35,00 por onça-troy (31 gramas).
 
3. Entretanto, em agosto de 1971, os EUA romperam oficialmente os acordos de Bretton Woods, que já descumpriam na prática, desde, pelo menos, 1968, ao dificultar, a entrega do ouro.
 
4. Não lhes foi difícil virar a mesa, a seu talante, uma vez que eram satélites dos EUA os países que  acumulavam maiores saldos de transações correntes em dólares - como Japão, Alemanha e Itália,  ocupados militarmente desde o final da Guerra.
 
5. A exceção foi a França, cujo presidente,  general De Gaulle praticava política independente. Exigia a conversão em ouro dos saldos de seu país, pois colocava os interesses nacionais acima da ideologia, inclusive em seu posicionamento em face da Guerra Fria.
 
6. A oligarquia financeira angloamericana visa exclusivamente ao poder mundial ilimitado e tampouco acredita em ideologias. Usa qualquer uma, em qualquer lugar,  que a ajude, conforme o momento, a avançar naquele objetivo.
 
7. Assim, os serviços secretos dos EUA e do Reino Unido, juntamente com as máquinas de corrupção de instituições públicas e privadas desses países, fomentaram, na França, lideranças estudantis esquerdistas, com apoio da grande mídia e até de partidos e organizações de esquerda. 
 
8. Assim, mobilizaram massas no movimento de maio de 1968, que espalhou a desordem e o caos pela França, e até hoje é considerado libertário pela opinião majoritária.
 
9. Apesar de alvo das manobras angloamericanas de desestabilização, De Gaulle manteve-se no governo até 1969, renunciando, ao ser derrotado em um referendo, pela primeira vez.
 
10. Esse tratamento, dado pela tirania imperial a De Gaulle, foi menos brutal que o dispensado a Saddam Hussein em 2003 e a Muamar Ghadáfi em 2011. Afinal, a França era potência nuclear e aliada, ademais de fonte das tão traídas ideias democráticas, formalmente adotadas nos EUA.
 
11.  Pela mesma tentativa, de livrar seus países da extorsão pelo dólar, Hussein e Ghadáfi foram assassinados, com seus filhos e famílias, e seus países destruídos por agressões militares genocidas.
 
12. Daí se infere a importância para o império de continuar obrigando suas vítimas a custear até as armas com que são trucidadas ou chantageadas.
 
13. Pode-se estimar o que está em jogo pela proliferação dos ativos financeiros em dólares. Os derivativos nessa denominação passam de  US$ 500 trilhões.
 
14. Vê-se, ainda, a inflação do dólar comparando a taxa de conversão do ouro até os anos 60, e sua ascensão posterior no mercado:  de US$ 35,00 por onça-troy ele foi para os atuais US$ 1.300,00.
 
15. Chegou a US$ 1.800,00 em 2011, e só caiu por meio de manipulações dos grandes bancos, que fazem o que querem nos “mercados financeiros”, como vender quantidades enormes de certificados de ouro que não existe em cofre algum.
 
16. Esses certificados não passam de papel pintado, como o dólar foi descrito pelo general De Gaulle, nos anos 60. Hoje, nem isso, pois    basta um clic nos computadores dos bancos do sistema do FED  para passar o conto do paco no mundo inteiro.
 
17. A situação de um país em relação aos EUA é semelhante à de um particular ou de uma empresa em relação ao banco  com que opera.  Quando o banco faz empréstimos, cria dinheiro: abre, do nada, créditos na conta do tomador, e este fica obrigado a pagar amortizações  e juros com dinheiro de seu salário ou de outra receita do trabalho individual ou empresarial.
 
18. Sob “governos”  traidores, que começaram a entregar o mercado às empresas transnacionais após o golpe de agosto de 1954, o Brasil ficou fadado a ter déficits crônicos no comércio de bens e serviços (transações correntes) com o exterior, a origem das dívidas externa e interna.
19. O déficit de conta corrente tem crescido aceleradamente e somou US$ 81,4 bilhões em 2013. No primeiro quadrimestre, já atingiu US$ 33,5 bilhões, projetando mais de US$ 100 bilhões em 2014 (quase 5% do PIB). 
20. De 2008 a 2012, totalizou US$ 204,1 bilhões, devendo, pois, ao final de 2014, acumular mais de US$ 400 bilhões, salvo se a crise econômica desabar sobre o País antes de o ano terminar.
21. O rombo é mal tapado pela entrada de investimentos estrangeiros, porquanto estes implicam intensificar a causa do mal, pois o grosso dos déficits externos decorreu dos lucros, inclusive  disfarçados em despesas, remetidos ao exterior, relacionados também com o  desequilíbrio inerente ao comércio entre países que se desenvolveram e os que patinam no atraso tecnológico, proveniente da desnacionalização da economia.
22. A moral, ou antes, a imoralidade da história é que para “investir” as transnacionais só precisam de dólares que seus bancos criam à vontade, enquanto as dívidas que o Brasil acumula, têm de ser pagas com bens, patrimônios e trabalho nacionais.
 
23. Com efeito, valendo-se do privilégio dado ao dólar como divisa internacional, os emissores dessa moeda e as empresas a eles ligadas  não têm dificuldade alguma para comprar patrimônios, empresas e consciências em qualquer país que não restrinja essas aquisições.
 
24. Instituído no final de 1913, em trama na qual o Congresso cedeu seus poderes à oligarquia, o FED, banco central dos EUA, cria  dólares e os fornece aos bancos angloamericanos que formam o cartel controlador do próprio FED.
 
25. Sair do dólar gerará represálias das potências angloamericanas e satélites, também dominadas pelos manipuladores dos mercados financeiros. Entretanto, é medida de sobrevivência para quem não quiser continuar sendo satélite ou colônia da oligarquia mundial.
 
26. A alternativa é ser subjugado através da ilimitada criação de moeda, que permite a essa oligarquia adquirir praticamente tudo, em qualquer lugar do mundo, além de financiar sua máquina de guerra.
 
27. Os EUA, de há muito, investem em armas mais que o dobro que o resto do mundo, e são as armas que, por exemplo, obrigam países exportadores de petróleo e a vendê-lo por dólares.
 
28. A questão está na ordem do dia. Haverá reunião em julho deste ano, em Fortaleza, na qual se espera que os chefes de Estado dos BRICS formalizem a criação de Banco de Desenvolvimento e assinem Acordo Contingente de Reservas.
 
29. Mais promissora, por ora, é a realização, nas moedas da Rússia e da China, dos pagamentos referentes ao novo e expressivo acordo de fornecimentos de gás  russo e às exportações chinesas relacionadas.
 
30. Essas potências já realizam, em suas moedas, algumas transações com terceiros países, principalmente asiáticos, e a amplificação disso é fundamental para o ainda distante fim do domínio mundial do dólar. 
 
31. Para contribuir nessa direção, o Brasil precisa, desde logo, revogar o art. 164 da Constituição e nacionalizar o Banco Central. 
 
32. De fato, entre outros atos lesivos aos interesses nacionais, o BACEN, rejeita operações pelo Convênio de Créditos Recíprocos, firmado, em 1968, com países latino-americanos, e através do qual as operações de comércio exterior podem ser liquidadas nas moedas dos países membros, e os saldos, financiados pelas autoridades financeiras respectivas.
 
* - Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Animais em extinção

Gen. Bda Rfm Valmir Fonseca Azevedo Pereira
 
O elenco de animais e aves que na trajetória da humanidade foram extintos é impressionante. Dinossauros, répteis, peixes e aves que nunca vimos foram dizimados ou extintos por varias razões, em especial pelas hecatombes, e muitos exterminados pelas mãos dos homens.
 
O dodô (Raphus cucullatus), uma mistura de marreco com ornitorrinco, foi um deles. Ilustrado por inúmeros desenhos e filmes infantis, aquela exótica ave sempre foi retratada com simpatia, embora como de boçal ignorância, capaz de lançar - se de um abismo em direção a alhures, quando defronte a qualquer inimigo ou situação indigesta.
 
Era a chamada fuga corajosa.E isto em bandos, cada dodô empolgando os companheiros para, na falta de qualquer esperança, lançar - se para o ignoto. Ao que parece na sua inocente ignorância, os dodôs, totalmente desarticulados, preferiam dar adeus às armas e lançavam - se, destemidamente, para algum lugar melhor do que viviam, quem sabe para encontrar o paraíso.
 
Como alento aos desesperançados militares que a cada dia caminham em direção ao abismo, podemos afirmar que a humanidade em geral simpatizava com todos aqueles animais, peixes e aves extintos, inclusive, por exemplo, o temível “dente de sabre”.
 
Muitos poderão julgar que o suicídio em massa é desproposital e que as instituições militares gozam de um prestígio considerável e que deveriam rechaçar e mesmo expulsar os seus detratores.“É vredade”, diz uma conhecida animadora da nossa TV.
 
Mas ,como os dodôs, eles não possuem as artimanhas de seus inimigos, nem a falsidade que os anima e, por isso, lá se vão os militares, impavidamente, tal qual os dodôs, em direção ao ostracismo como determinam os seus algozes.
 
Muita gente reclama, e, praticamente exige uma reação à altura das convicções militares, porém se o dodô - chefe falasse, ele diria, “após décadas de revanchismo, tantas tentativas de metamorfosear a Lei da Anistia, décadas de exaltação aos terroristas e perseguições aos ex - agentes da repressão, chegamos à conclusão que é melhor, pular no abismo.
No futuro, como os saudosos e inocentes dodôs, os respeitados cidadãos fardados serão lembrados como exemplo de dignidade e de honradez, e que, no seu extermínio, foi decretado o fim da democracia e o início do caos que aniquilou para sempre a Terra de Santa Cruz ou de Vera Cruz, eterna “potência mundial”.
Como afirmam os espertos, “é melhor ser um covarde vivo do que um dodô extinto”. O grande problema está naqueles que nem querem pular no abismo e nem serem chamados de covardes.
 
 

sábado, 31 de maio de 2014

Barbosa e o risco de abraçar a política

O ministro Joaquim Barbosa anunciou seu afastamento do Supremo Tribunal Federal, por desejo de aposentadoria, mas também cedendo a ameaças que estariam sendo feitas pela sua atuação decisiva na condenação dos políticos e empresários envolvidos no "Mensalão", o processo referente à  compra de votos parlamentares durante o Governo Lula.
Não se sabe até que ponto Joaquim Barbosa fez ou deixou de fazer o jogo de interesses do ex-presidente Lula, que o nomeou para a colenda Corte, ou se agiu conforme as suas convicções pessoais. Afinal, num tribunal superior cujos membros foram, majoritariamente, nomeados por influência do Partido dos Trabalhadores - PT-, a unanimidade absoluta nas decisões seria uma burrice política. Um, dois ou três contrapontos são necessários, e Joaquim Barbosa é um deles, ao lado dos ministros Marco Aurélio Mello e Gilmar Ferreira Mendes.
O arcabouço jurídico brasileiro não difere muito dos arcabouços dos demais países desenvolvidos e em desenvolvimento, no tocante à essência da ética e da moral, cujos princípios remontam a milhares de anos antes de Cristo, bem antes do próprio Código de Hamurabi e dentro da cultura sumeriana e acadiana. O que muda no processo normativo são os aspectos relacionados à cultura de cada povo, as tais idiossincrasias culturais, que o levam a agir com rigor, permissividade, indolência, coragem, etc..
Quando Joaquim Barbosa, o primeiro negro a presidir o Supremo Tribunal Federal, procurou estabelecer procedimento rigoroso para a condenação e prisão dos envolvidos no "Mensalão", o Brasil e o próprio exterior chegaram a duvidar da capacidade do ministro de levar adiante tão ousada posição. Afinal, ele foi diversas vezes confrontado por vários colegas diante das câmeras de televisão, sendo alvo às vezes de insinuações preconceituosas na própria mídia, baseadas em sua cor, em seus hábitos populares de frequentar bares e espetáculos musicais, e até mesmo em suas dores-de-coluna.
Joaquim Barbosa cresceu como nome potencialmente candidato a cargos eletivos, entre os quais o de Presidente da República. Seu nome virou estrela nas redes sociais, mas nem isto parece ter motivado o ministro a se filiar a partido político e disputar algum cargo, hipótese que ele não elimina em suas declarações de afastamento das lides judiciárias.
Barbosa sabe que, entre a teoria e a prática de se transformar em político, existe um imenso fosso a ser superado, pois a figura de um ministro do STF impõe respeito na mídia e na opinião pública em geral, mas a figura do político está sujeita atualmente a imenso desgaste, em face da dicotomia entre as práticas existentes e as aspirações e os interesses da sociedade brasileira. De estilingue, o ministro passaria a ser vidraça, uma transformação nada confortável.
A conversão de um potencial candidato a cargo eletivo em titular de mandato requer o preenchimento de, pelo menos nas minhas contas, no meu “Manual de Campanha Eleitoral”, 22 requisitos, que variam desde a vontade de querer disputar um cargo eletivo até a estratégia de reeleição. Ou seja, a conquista e manutenção do poder político, entre a pretensão e a realização como ator, não se constituem  numa empreitada fácil, como o senso-comum imagina.
Acredito que, ponderando a respeito de suas chances numa carreira política,  até mesmo em função de suas condições físicas, o ministro fará prevalecer o seu bom- senso, mantendo-se distante da fogueira das vaidades que arde na arena política, ainda que o convençam de que os braços do povo o esperam. Dificilmente, conseguiria superar como político os marcos virtuosos que conseguiu superar como juiz.